O comércio exterior, um setor tradicionalmente marcado por processos complexos e burocráticos, está à beira de uma transformação sem precedentes. A Inteligência Artificial (IA) emerge como a força motriz dessa revolução, prometendo não apenas otimizar operações, mas redefinir as próprias bases da segurança, conformidade e competitividade no mercado global. Em um cenário de rápidas mudanças, o Brasil se destaca tanto pela crescente adoção da tecnologia no setor privado quanto por iniciativas governamentais que buscam modernizar a aduana e combater fraudes com uma eficiência inédita. Este artigo explora o impacto da IA no comércio exterior, com base em dados de 2024 e 2025, e nos debates recentes sobre o futuro da aduana brasileira.
O Cenário Global: IA como Catalisadora do Comércio
A influência da Inteligência Artificial transcende fronteiras, e as projeções para o seu impacto no comércio global são expressivas. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), a IA tem o potencial de elevar o valor do comércio de bens e serviços em quase 40% até 2040, além de impulsionar o PIB global em até 13% 1. Essa expansão será alimentada pela redução de custos em logística, conformidade regulatória e comunicação, permitindo que pequenas e médias empresas (PMEs) acessem mercados globais com maior facilidade.
O mercado de IA, por si só, demonstra um crescimento exponencial. Estimativas indicam que o valor de mercado global de IA, que em 2025 é de US$ 244 bilhões, deve mais que triplicar até 2030, alcançando US$ 826 bilhões 2. Esse avanço reflete-se na crescente integração da IA em softwares corporativos, com a previsão de que mais de 80% deles terão a tecnologia integrada até 2027 2.
| Indicador | Projeção | Fonte |
| Crescimento do Comércio Global (até 2040) | +34% a 37% | OMC 1 |
| Aumento do PIB Global (até 2040) | +12% a 13% | OMC 1 |
| Mercado Global de IA (2030) | US$ 826 bilhões | Statista 2 |
| Gasto com IA Generativa (2025) | US$ 644 bilhões | Gartner 2 |
A Aduana do Futuro: A Visão da Receita Federal
Atenta a essa transformação digital, a Receita Federal do Brasil (RFB) tem investido maciçamente em tecnologia para modernizar suas operações e, principalmente, fortalecer a conformidade aduaneira. A visão de uma “aduana presente” e 100% focada em conformidade por meio da tecnologia é a prioridade, como destacado em debates recentes com a presença de representantes do órgão. A tecnologia é vista como a principal ferramenta para dar segurança às operações, permitindo um tratamento de dados massivo para alcançar operações fraudulentas e garantir o alinhamento do mercado.
Essa mudança de paradigma, de uma Receita puramente punitiva para uma abordagem mais colaborativa e orientadora, é sustentada por uma infraestrutura tecnológica robusta. Com mais de 40 projetos de IA ativos, a RFB processa mensalmente um volume impressionante de dados, incluindo 690 milhões de notas fiscais eletrônicas 3.
Os resultados já são tangíveis. De janeiro a outubro de 2024, a Receita Federal aplicou mais de 3.200 autos de infração aduaneira, totalizando mais de R$ 5,3 bilhões em créditos tributários lançados. Grande parte dessas autuações foi possível graças ao uso de IA para identificar inconsistências em declarações, como subfaturamento e classificação fiscal incorreta, especialmente em setores como eletroeletrônicos, bebidas e vinhos.
O Desafio do Regulamento Aduaneiro
Um dos maiores entraves para a modernização completa do setor é o Regulamento Aduaneiro brasileiro, considerado sexagenário e antiquado. Profissionais da área apontam a legislação como um grande desafio, e a necessidade de um novo regulamento, mais moderno e alinhado às práticas internacionais, é um consenso. Em resposta, a Receita Federal trabalha no desenvolvimento de um novo regulamento, que busca incorporar as práticas já estabelecidas de maneira infralegal e promover um ambiente de maior segurança jurídica.
Contudo, o avanço dessa nova legislação, como o Projeto de Lei (PL) 4.423/2024, enfrenta críticas pela pouca participação do setor privado em sua elaboração. Especialistas apontam que o texto ainda se concentra excessivamente no controle regulatório e delega muitas atribuições ao Poder Executivo, perdendo a oportunidade de promover uma desburocratização mais efetiva 5. A iniciativa privada, como ressaltado nos debates, precisa defender seus interesses e participar ativamente desse processo de construção colaborativa.
Adoção e Impacto no Setor Privado Brasileiro
O setor privado brasileiro não está apenas assistindo a essa transformação, mas a abraçando ativamente. O número de empresas industriais que utilizam IA cresceu 163% entre 2022 e 2024, com 41,9% das companhias pesquisadas pelo IBGE já fazendo uso da tecnologia 6. Empresas que implementam soluções de IA em suas cadeias de suprimentos (supply chain) relatam ganhos de eficiência que variam entre 20% e 40% 7.
A IA está sendo aplicada em diversas frentes, desde a análise de mercado e previsão de demandas até a otimização de rotas logísticas e a automação de processos de conformidade. Ferramentas de IA podem monitorar portais de governo em tempo real em busca de atualizações legais, cruzar dados de embarques anteriores para prever riscos e otimizar a classificação fiscal de mercadorias, reduzindo erros e custos.
Desafios e o Caminho a Seguir
Apesar do otimismo, a implementação da IA no comércio exterior não é isenta de desafios. A qualidade dos dados é um fator crítico, pois previsões baseadas em informações imprecisas podem levar a decisões equivocadas. Questões éticas, como a privacidade de dados e a transparência dos algoritmos, também precisam ser endereçadas com seriedade.
A geopolítica continua a ser um fator dominante, impondo barreiras ao compartilhamento de dados entre países. No entanto, projetos de cooperação governamental e a consolidação de programas como o Operador Econômico Autorizado (OEA) — que cresceu mais de 20% em 2024 4 — são vistos como caminhos para construir um ambiente de maior confiança e previsibilidade.
A educação também se apresenta como um pilar fundamental. A carência de formação em direito aduaneiro e a necessidade de capacitação em ciência de dados são gargalos que precisam ser superados para que o Brasil possa aproveitar todo o potencial da IA.
A revolução da Inteligência Artificial no comércio exterior é um caminho sem volta. Para o Brasil, a jornada envolve uma colaboração estreita entre o setor público e a iniciativa privada, a modernização de sua legislação e um investimento contínuo em tecnologia e capital humano. A urgência e a necessidade, como apontado por especialistas, serão os grandes motores dessa evolução, transformando a aduana brasileira e posicionando o país de forma mais competitiva no cenário global.
Referências
[2] Thunderbit. “140 Estatísticas Essenciais de Inteligência Artificial para 2025”. Maio de 2025.
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